Como reportar resultados estatísticos em ABNT e APA

Atualizado em 7 de setembro de 2026 · leitura de 13 minutos

Você rodou a análise, o p-valor deu significativo, e agora vem a parte que ninguém ensina: transformar números em prosa acadêmica. Esta é a etapa em que trabalhos estatisticamente corretos recebem correções extensas — não por erro de cálculo, mas por redação inadequada, formatação fora de norma e omissão de informações obrigatórias.

A seção de resultados tem uma regra de ouro que resolve metade dos problemas: ela apresenta, não interpreta. Interpretação, comparação com a literatura e explicações causais pertencem à discussão. Nos resultados você relata o que os dados mostraram, de forma objetiva e completa.

O que todo resultado inferencial deve conter

Independentemente do teste, cinco elementos são obrigatórios em padrões contemporâneos:

  1. Nome do teste aplicado
  2. Estatística de teste com graus de liberdade (t, F, U, χ², H)
  3. P-valor exato, ou "< 0,001" quando muito pequeno
  4. Tamanho de efeito (d de Cohen, η², r, V de Cramér)
  5. Estatística descritiva dos grupos: média e desvio-padrão, ou mediana e intervalo interquartil

O item 4 é o mais negligenciado e o mais cobrado atualmente. Desde a declaração da American Statistical Association sobre p-valores (2016), reportar apenas significância é considerado prática insuficiente. Tamanho de efeito responde à pergunta que realmente importa: o efeito é grande o bastante para ter relevância prática? Adicionar o intervalo de confiança (item opcional, mas fortemente recomendado) eleva ainda mais a qualidade.

Convenções numéricas em português

Modelos de redação por teste

Teste t independente

O grupo intervenção (M = 74,32; DP = 8,15; n = 25) apresentou desempenho significativamente superior ao grupo controle (M = 62,08; DP = 9,42; n = 25), t(48) = 4,91; p < 0,001; IC 95% [7,23; 17,25]; d de Cohen = 1,39, caracterizando efeito de grande magnitude.

Se a correção de Welch foi aplicada, informe: "adotou-se a correção de Welch em razão da heterogeneidade das variâncias (Levene: F = 6,12; p = 0,017)", e os graus de liberdade aparecerão fracionários — t(43,7).

Teste t pareado

Observou-se aumento significativo do escore entre o pré-teste (M = 58,40; DP = 7,21) e o pós-teste (M = 68,95; DP = 6,88), t(29) = 8,14; p < 0,001; Δ = 10,55 pontos; IC 95% [7,90; 13,20]; d = 1,49.

Mann-Whitney

Considerando a violação do pressuposto de normalidade verificada pelo teste de Shapiro-Wilk, aplicou-se o teste U de Mann-Whitney. O grupo experimental (Md = 8,00; IIQ = 7,00–9,00) obteve escores significativamente superiores ao grupo controle (Md = 6,00; IIQ = 5,00–7,00), U = 142,5; z = −3,42; p < 0,001; r = 0,48, indicando efeito moderado.

Em testes não paramétricos reporte mediana e intervalo interquartil, não média e desvio-padrão — usar média aqui contradiz a própria justificativa de escolha do teste.

Wilcoxon

O teste de Wilcoxon para amostras pareadas indicou variação significativa entre os momentos (n = 28), T = 34,0; z = −3,88; p < 0,001; r = 0,52.

ANOVA one-way com pós-teste

A análise de variância one-way revelou diferença significativa entre os três grupos, F(2, 87) = 12,47; p < 0,001; η² = 0,223, correspondente a efeito de grande magnitude. A homogeneidade das variâncias foi confirmada pelo teste de Levene (F = 1,08; p = 0,344). O pós-teste de Tukey indicou que o grupo A (M = 78,2; DP = 6,1) diferiu significativamente do grupo B (M = 68,5; DP = 7,3; p = 0,002) e do grupo C (M = 65,1; DP = 6,9; p < 0,001), sem diferença entre B e C (p = 0,182).

Sempre informe qual pós-teste foi usado e apenas execute-o se o F global for significativo.

Kruskal-Wallis

O teste de Kruskal-Wallis apontou diferença significativa entre os grupos, H(2) = 15,82; p < 0,001; ε² = 0,178. O pós-teste de Dunn com correção de Bonferroni identificou diferença entre os grupos A e C (p = 0,003).

Correlação de Pearson

Verificou-se correlação positiva moderada e significativa entre horas de estudo e desempenho acadêmico, r(48) = 0,624; p < 0,001; IC 95% [0,42; 0,77]; R² = 0,389, indicando que 38,9% da variância do desempenho é compartilhada com a variável horas de estudo.

Nunca escreva que uma variável "causou" a outra. Use "associou-se a", "relacionou-se com", "variou conjuntamente com".

Correlação de Spearman

A correlação de Spearman indicou associação negativa moderada e significativa entre nível de ansiedade e qualidade do sono, ρ(62) = −0,438; p < 0,001.

Regressão linear simples

A regressão linear simples mostrou-se significativa (F(1, 98) = 41,23; p < 0,001), explicando 29,6% da variância do desfecho (R² = 0,296; R² ajustado = 0,289). O coeficiente angular foi β = 0,4218 (EP = 0,0657; t = 6,42; p < 0,001; IC 95% [0,2914; 0,5522]), resultando na equação Y = 42,3560 + 0,4218·X. Assim, cada unidade adicional na variável preditora associou-se a aumento médio de 0,42 unidade no desfecho.

Chi-quadrado

A associação entre sexo e adesão ao tratamento foi estatisticamente significativa, χ²(1) = 8,74; p = 0,003; V de Cramér = 0,264. Entre as mulheres, 72,4% (n = 42) apresentaram adesão, contra 48,9% (n = 23) dos homens.

Se alguma frequência esperada foi inferior a 5, reporte o teste exato de Fisher e justifique a substituição.

Resultado não significativo

Não foi observada diferença estatisticamente significativa entre os grupos, t(58) = 1,24; p = 0,220; d = 0,32. Ressalta-se que o poder observado de 63% indica que efeitos de menor magnitude podem não ter sido detectados, não sendo possível afirmar equivalência entre os grupos.

Jamais escreva "não houve diferença" ou "os grupos são iguais". A formulação correta é sempre "não foi observada diferença estatisticamente significativa". Reportar o tamanho de efeito e o poder em resultados nulos é sinal de rigor.

Formatação de tabelas

ABNT e APA convergem em um ponto essencial: tabelas científicas não têm linhas verticais nem grades completas. Apenas três linhas horizontais — acima do cabeçalho, abaixo do cabeçalho e ao final. Copiar tabela do Excel com todas as bordas é o erro visual mais imediato que um avaliador identifica.

Formatação de figuras

Estrutura recomendada da seção de resultados

  1. Caracterização da amostra. N final, perdas e exclusões com justificativa, dados sociodemográficos. Se houve perda de participantes, informe quantos e por quê — omitir isso levanta suspeita de viés de seleção.
  2. Verificação de pressupostos. Resultados do Shapiro-Wilk e do Levene, justificando a escolha entre abordagem paramétrica e não paramétrica.
  3. Estatística descritiva das variáveis principais, geralmente em tabela.
  4. Análises inferenciais na ordem dos objetivos específicos declarados na introdução. Essa correspondência é verificada pela banca.
  5. Análises complementares ou exploratórias, claramente identificadas como tais.

Erros que geram correção

Como declarar o método no capítulo de métodos

A normalidade da distribuição dos dados foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk e a homogeneidade das variâncias pelo teste de Levene. Atendidos os pressupostos, as comparações entre grupos foram realizadas por meio do teste t de Student para amostras independentes; nos casos de violação, adotou-se o teste U de Mann-Whitney. As correlações foram estimadas pelo coeficiente de Pearson. O tamanho de efeito foi calculado pelo d de Cohen, interpretado conforme os parâmetros de Cohen (1988). Adotou-se nível de significância de 5% (α = 0,05) para todas as análises.

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Referências