Você rodou a análise, o p-valor deu significativo, e agora vem a parte que ninguém ensina: transformar números em prosa acadêmica. Esta é a etapa em que trabalhos estatisticamente corretos recebem correções extensas — não por erro de cálculo, mas por redação inadequada, formatação fora de norma e omissão de informações obrigatórias.
A seção de resultados tem uma regra de ouro que resolve metade dos problemas: ela apresenta, não interpreta. Interpretação, comparação com a literatura e explicações causais pertencem à discussão. Nos resultados você relata o que os dados mostraram, de forma objetiva e completa.
O que todo resultado inferencial deve conter
Independentemente do teste, cinco elementos são obrigatórios em padrões contemporâneos:
- Nome do teste aplicado
- Estatística de teste com graus de liberdade (t, F, U, χ², H)
- P-valor exato, ou "< 0,001" quando muito pequeno
- Tamanho de efeito (d de Cohen, η², r, V de Cramér)
- Estatística descritiva dos grupos: média e desvio-padrão, ou mediana e intervalo interquartil
O item 4 é o mais negligenciado e o mais cobrado atualmente. Desde a declaração da American Statistical Association sobre p-valores (2016), reportar apenas significância é considerado prática insuficiente. Tamanho de efeito responde à pergunta que realmente importa: o efeito é grande o bastante para ter relevância prática? Adicionar o intervalo de confiança (item opcional, mas fortemente recomendado) eleva ainda mais a qualidade.
Convenções numéricas em português
- Separador decimal é a vírgula. Escreva p = 0,032, não p = 0.032. Este é o erro de formatação mais frequente em trabalhos brasileiros, porque o software estatístico devolve ponto e a conversão é esquecida.
- Duas casas decimais para médias, desvios-padrão e estatísticas de teste. Três casas para p-valores, coeficientes de correlação e tamanhos de efeito.
- Nunca "p = 0,000". Um p-valor nunca é exatamente zero. Use "p < 0,001".
- Não use zero à esquerda em quantidades que não podem exceder 1: escreva p = ,032 e r = ,45 segundo a APA estrita. Na prática brasileira, "p = 0,032" é amplamente aceito — verifique o manual do seu programa.
- Símbolos estatísticos em itálico: p, t, F, r, M, DP, n, d. Já os subscritos e os nomes de testes ficam em redondo.
- Graus de liberdade entre parênteses, imediatamente após a estatística: t(48), F(2, 147), χ²(3).
- Abreviaturas em português: M para média, DP para desvio-padrão, Md para mediana, IIQ para intervalo interquartil, EP para erro-padrão, IC para intervalo de confiança. Em APA em inglês seriam M, SD, Mdn, IQR, SE, CI.
Modelos de redação por teste
Teste t independente
Se a correção de Welch foi aplicada, informe: "adotou-se a correção de Welch em razão da heterogeneidade das variâncias (Levene: F = 6,12; p = 0,017)", e os graus de liberdade aparecerão fracionários — t(43,7).
Teste t pareado
Mann-Whitney
Em testes não paramétricos reporte mediana e intervalo interquartil, não média e desvio-padrão — usar média aqui contradiz a própria justificativa de escolha do teste.
Wilcoxon
ANOVA one-way com pós-teste
Sempre informe qual pós-teste foi usado e apenas execute-o se o F global for significativo.
Kruskal-Wallis
Correlação de Pearson
Nunca escreva que uma variável "causou" a outra. Use "associou-se a", "relacionou-se com", "variou conjuntamente com".
Correlação de Spearman
Regressão linear simples
Chi-quadrado
Se alguma frequência esperada foi inferior a 5, reporte o teste exato de Fisher e justifique a substituição.
Resultado não significativo
Jamais escreva "não houve diferença" ou "os grupos são iguais". A formulação correta é sempre "não foi observada diferença estatisticamente significativa". Reportar o tamanho de efeito e o poder em resultados nulos é sinal de rigor.
Formatação de tabelas
ABNT e APA convergem em um ponto essencial: tabelas científicas não têm linhas verticais nem grades completas. Apenas três linhas horizontais — acima do cabeçalho, abaixo do cabeçalho e ao final. Copiar tabela do Excel com todas as bordas é o erro visual mais imediato que um avaliador identifica.
- Título acima da tabela, alinhado à esquerda, numerado sequencialmente: "Tabela 1 — Caracterização da amostra".
- Fonte e notas abaixo, em tamanho menor (10 pt), precedidas de "Nota." em itálico. Explique aqui todas as abreviaturas e a convenção de asteriscos, se usados.
- Toda tabela deve ser citada no texto antes de aparecer: "conforme a Tabela 1" ou "(Tabela 1)". Tabela que não é mencionada no texto é considerada erro.
- Não repita no texto tudo que está na tabela. Destaque no parágrafo apenas os achados centrais e remeta à tabela para o detalhamento.
- Alinhe números pela vírgula decimal e mantenha o mesmo número de casas em toda a coluna.
Formatação de figuras
- Legenda abaixo da figura — ao contrário da tabela, cujo título vai acima. ABNT usa "Figura 1 — ..." e APA usa "Figura 1" em negrito com o título na linha seguinte, em itálico.
- Resolução mínima de 300 dpi. Captura de tela de gráfico é a principal causa de figura recusada por revista, e fica visivelmente serrilhada quando impressa.
- Fundo branco, texto preto. Gráfico com fundo escuro ou colorido não imprime bem e encarece publicação. Use a opção de tema claro antes de exportar.
- Rotule os dois eixos com o nome da variável e sua unidade de medida. Eixo sem rótulo é falha básica.
- Não use gráfico 3D nem efeitos decorativos. Distorcem a percepção de proporção e são desaconselhados por todos os manuais.
- Barras de erro devem ser identificadas na legenda: informe se representam desvio-padrão, erro-padrão ou intervalo de confiança — são coisas diferentes e a omissão torna o gráfico ininterpretável.
- Considere acessibilidade a daltônicos. Não dependa apenas de cor para distinguir séries; use também padrões, marcadores ou rótulos diretos.
Estrutura recomendada da seção de resultados
- Caracterização da amostra. N final, perdas e exclusões com justificativa, dados sociodemográficos. Se houve perda de participantes, informe quantos e por quê — omitir isso levanta suspeita de viés de seleção.
- Verificação de pressupostos. Resultados do Shapiro-Wilk e do Levene, justificando a escolha entre abordagem paramétrica e não paramétrica.
- Estatística descritiva das variáveis principais, geralmente em tabela.
- Análises inferenciais na ordem dos objetivos específicos declarados na introdução. Essa correspondência é verificada pela banca.
- Análises complementares ou exploratórias, claramente identificadas como tais.
Erros que geram correção
- Ponto decimal em vez de vírgula. Faça busca e substituição no documento final — o software devolve ponto e a conversão sempre escapa em algum número.
- Interpretar na seção de resultados. "Isso ocorreu provavelmente porque..." pertence à discussão. Nos resultados, apenas o que os dados mostram.
- Omitir o tamanho de efeito. Cobrança cada vez mais frequente.
- Não informar quantos participantes foram perdidos.
- Tabela com todas as bordas do Excel.
- Gráfico sem rótulo de eixo ou com fundo colorido.
- Reportar quatro ou cinco casas decimais. Precisão espúria — duas ou três bastam e demonstram compreensão de incerteza de medida.
- Usar "significante" no lugar de "significativo". Em português, "estatisticamente significativo" é o termo correto.
- Tabela ou figura não citada no texto.
- Não informar o software utilizado. Declare na seção de métodos: "As análises foram conduzidas no software X, versão Y, adotando-se nível de significância de 5%."
Como declarar o método no capítulo de métodos
Gere isso automaticamente
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- AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Publication manual of the American Psychological Association. 7. ed. Washington: APA, 2020.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14724: informação e documentação — trabalhos acadêmicos — apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.
- COHEN, J. Statistical power analysis for the behavioral sciences. 2. ed. Hillsdale: Erlbaum, 1988.
- INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Normas de apresentação tabular. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993.
- WASSERSTEIN, R. L.; LAZAR, N. A. The ASA statement on p-values. The American Statistician, v. 70, n. 2, p. 129-133, 2016.